Entrevista Capa
Marília Gabriela Chega a hora de parar


Por Michele Marreira

Marília Gabriela Baston de Toledo é ligada no 220. E hoje, aos 69 anos, optou por colocar o pé no freio e respirar tranquila, sem horários, reuniões de pauta e produções incessantes.
São quase 50 anos de carreira que ela prefere não contabilizar. Marília não é fã dos números e não sabe nem quanto pesa. Mas também, pra que?
Esbelta, linda e sensual, ela se dedica aos pilates há mais de 10 anos, bebe seis copos de água quando acorda, ainda e jejum, e não pega sol para manter a cútis rejuvenescida.
É fã das vitaminas.


Jornalista admirada e ex-mulher do galã Reinado Gianecchini, iniciou carreira como estagiária do
Jornal Nacional em 1969 e, uma década depois, fez história como âncora do extinto TV Mulher, ao lado do apresentador Ney Gonçalves Dias, da então sexóloga Marta Suplicy, do saudoso estilista Clodovil Hernandez, entre outras celebridades. Após sua saída do programa, experimentou outras veias da profissão aceitando o desafio de ser correspondente da TV Globo na Inglaterra para o dominical Fantástico.
Nesse formato, integrou diversas atrações em diferentes emissoras:
Cara a Cara (Bandeirantes), Marília Gabriela Entrevista (GNT), Gabi (Rede TV), De Frente com Gabi (SBT).
Marília chegou a apresentar programas em três canais diferentes, simultaneamente.

Fez uma passagem de um ano pela TV Cultura no tradicional
Roda Viva. Mulher à frente de seu tempo, no começo da profissão precisou lutar por salários justos; queria receber a mesma quantia que recebia seus colegas homens na época.
Ela vibra com o movimento em prol da mulher que a era digital possibilita nos dias de hoje.

Gabi também canta! E bem. Gravou três discos; dois pela Som Livre - sendo o primeiro com participações especiais de Simone e Caetano Veloso e o segundo com direção musical de César Camargo Mariano - e um pela Universal Music intitulado Perdida de Amor.

Decidiu se enveredar pelo caminho das artes cênicas no ano de 2001, ao protagonizar o espetáculo teatral Esperando Beckett, escrito e dirigido pelo conceituado dramaturgo Gerald Thomas. Sua relação com os palcos é de entrega e sintonia. Viveu diferentes perfis no tablado em projetos como Lady Macbeth, Aquela Mulher, Vanya e Sonia e Masha e Spike, se dedicando ano passado na peça Constelações, contracenada com o ator Caco Ciocler.
Mas não pense que Marília se aventurou. Além de seguir os passos da irmã mais velha, que fez teatro universitário, estudou artes cênicas enquanto ingressava na faculdade de jornalismo.

Na telinha, mergulhou de cabeça no papel de duas mulheres destemidas, Josefa e Guilhermina, respectivamente, numa mesma trama em fases distintas, ao fazer seu
début na novela Senhora do Destino, de Agnaldo Silva. Ainda na dramaturgia da Rede Globo integrou o elenco das tramas JK, Duas Caras, Cinquentinha.
Haja Wikipédia para tanto trabalho.

Agora, Marília quer mesmo é curtir preguiça.

Resolvi aproveitar um pouco mais a minha vida, me dedicar a outros interesses”, sintetiza. Solteira, mãe de dois filhos – Christiano e Theodoro - e avó de Valentina, decidiu se reinventar no aspecto pessoal.

Depois do segredo de beleza revelado e um turbilhão de trabalhos relembrados, chegou a hora de você ficar de frente com Marília Gabriela.
Boa leitura.

Revista TUDO: É taxativo, Gabi? Você não volta mais para a TV?
Marília Gabriela:
Um belo dia eu pensei sobre o que é viver; será que é fazendo tudo, gastando todo seu tempo se dividindo entre família, criação de filhos, trabalho, trabalho e mais trabalho? E um dia a gente simplesmente morre. Comecei a me desapegar um pouco. E me dei a liberdade de parar. É um processo traiçoeiro trabalhar em televisão e depois tentar se desapegar, entrar em um tipo de esquecimento, mergulhar em nossa individualidade, sem a atenção e o paparico que esse veículo proporciona. Estou conseguindo de alguma maneira. Hoje em dia o ser humano consegue essa evidência por meio das redes sociais. É muito fácil ter pessoas que te acompanham, paparicam dizendo que você é linda e maravilhosa (risos). É um atrativo, uma isca. Eu cheguei ao raciocínio de que um dia vou embora. Eu trabalhava muito, sempre com horários apertados e muitas obrigações. Resolvi que eu gostaria de aproveitar um pouco mais a minha vida, me dedicar a outros interesses. Por isso parei de trabalhar em TV. Mas vira e mexe me chamam para participações; fiz algumas passagens pela internet com entrevistas também.

Você está dizendo que desacelerou. O que tem feito no tempo livre? Estou com 69 anos e “parei” com gente me dizendo para continuar. Recentemente passei um mês e meio visitando neta, filho e nora que moram nos Estados Unidos. Eu não poderia fazer isso antes. Economizei tanto a vida inteira, agora vou usar (risos). Me organizei para que eu possa me dar esse luxo de ficar um período sem trabalhar. Eu tinha prazer em realizar o meu trabalho, porém, a repetição e a obrigatoriedade que nos escravizam ao longo da vida eu não quero mais. Faço isso sem culpa. As minhas obrigações eu estabeleço com prazo de duração. Medo nunca fez parte do meu repertório. Parei porque quis, um privilégio.

Mesmo nesse período sabático, quais são os seus planos na carreira para esse ano de 2018, que está apenas começando?
Na TV, fui convidada para fazer uma participação numa minissérie e aceitei. Retornarei aos palcos em um projeto que comprei os direitos autorais. É uma peça de teatro que assisti na Broadway e, quando comecei a ler sobre o texto, me interessei muito em fazer e montar o espetáculo. Eu gosto de peças que distraiam, mas que tenham conteúdo. Teatro é o lugar onde realmente se discute a vida. Se eu conseguir que as pessoas percebam o que me move naquele contexto, já me sinto satisfeita. Ano passado me dediquei ao teatro e isso trouxe um tipo de retribuição muito interessante.

Já sofreu algum tipo de assédio ou preconceito na vida ou no trabalho, Gabi?
Às vezes me sinto desconfortável quando testemunho, ouço e vejo mulheres sofrendo discriminação. No início de carreira, por um longo período, eu ganhei menos do que os homens que trabalhavam comigo, ainda que eu encabeçasse um elenco de um determinado programa. Eu era desbravadora. Briguei muito pelos meus salários. Nasci e cresci em uma época em que mulheres foram à luta, quebraram a cara, acertaram, mas tudo na tentativa de batalhar por seus espaços.

Em mais de quatro décadas de carreira teve alguma entrevista que te marcou ou alguém que desejasse muito entrevistar?
Houve uma época em que achava que existiam entrevistas que poderiam ser mais importantes e perseguia alguns nomes “medalhões”. Mas, conforme você vai praticando sua profissão, descobre que, se bem explorado, todo mundo tem uma boa história para contar.
Não existe entrevistado melhor do que o outro.

Envelhecer é um processo que te assusta? Quais são as suas impressões da Terceira Idade?
Envelhecer com qualidade é envelhecer com saúde. Nesse processo, é importante se estruturar no físico e no psicológico de tal maneira que, ao chegar na velhice, não a percebamos. É importante ter a consciência de que estamos passando por esse processo, que irá nos afetar pontualmente porque isso é inevitável. Muitas pessoas sentem medo do envelhecimento porque logo depois vem o quê? A morte. Eu achei muito relevante uma pesquisa realizada recentemente pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) de SP em parceria com a Bayer: hoje em dia estão redefinindo o significado de “terceira idade”. Mais ativos do que nunca, homens e mulheres com mais de 55 anos não só vivem mais como vivem com qualidade. De acordo com o estudo, o envelhecimento está em pauta na vida de pessoas acima dos 55 anos. E segundo o IBGE, a expectativa média de vida do brasileiro, hoje, é de 77 anos.

O sexo nessa fase mais madura da vida, melhora, piora ou estagna?
Eu fico fascinada quando vejo mulheres, numa certa idade, dizendo sentir um fogaréu (risos), uma libido enlouquecida. A minha baixou consideravelmente, apesar da minha reposição hormonal. Faz parte também do envelhecimento. Namorei e casei bastante, tive uma vida sexual muito ativa, sempre. De uns tempos para cá, já não me importa tanto quanto sair para conversar com amigos, jantar fora, ir ao teatro ou cinema morrer de rir e voltar para casa para dormir. Essa constatação não me causou qualquer problema, não me perturba.

Como costuma ser sua rotina de beleza? E quais são seus cuidados com a alimentação?
Pratico pilates avançado diariamente, tomo litros de água e durmo oito horas por noite. Tomo um belíssimo café da manhã com pelo menos duas frutas e cereais. Eu me alimento bem, sou comilona. Utilizo diversos cremes, gosto de usar cosméticos para revitalizar minha pele.

Você é boa na cozinha?
Sou uma terrível cozinheira. Cismava ser a responsável por fazer a ceia no natal em família com meus filhos ainda crianças. Eu cozinhava e ao final perguntava se todos estavam gostando. Com a resposta, logo o espírito natalino desaparecia (risos). Sei fazer alguns pratos, mas não é a minha vocação prioritária.

Alguma curiosidade inusitada que o público desconheça?
Tem uma! Antes de dormir, coloco o relógio para despertar e faço umas cinco palavras cruzadas.


Antes de ir para a televisão, Marília Gabriela se formou professora primária. Anos depois ela cursaria ainda cinema, publicidade, artes plásticas e psicologia, sem concluir nenhum dos cursos.

Nascida em Campinas e com quase 50 anos de carreira, a jornalista já entrevistou cerca de 10 mil personalidades dentre elas Elton John, Yasser Arafat e Fidel Castro.

Em 1999, após um ano de namoro, Marília Gabriela casou-se com o modelo e ator Reynaldo Gianecchini, vinte e quatro anos mais novo do que ela (inclusive mais novo do que o primeiro filho). No dia 27 de outubro de 2006, a assessoria de imprensa anunciou a separação do casal.



 
IVETE SANGALO Sinta essa energia



Ivete Sangalo dança pelos extremos da vida. Até pouco tempo andava de buzão por Salvador em um dia e, no outro, cantava pelos palcos de Nova York. E não está nem aí pra isso. Óbvio que o dinheiro ajuda e, na pressa, troca a vida simples pelo seu jatinho particular, para cumprir a agenda com cerca de 10 shows ao mês; Ivete passou a dizer mais “nãos” ao trabalho com a chegada do filho Marcelo, há oito anos. Além disso, compartilha o seu tempo com os ofícios de
compositora, instrumentista, apresentadora, atriz, produtora musical, empresária, mãe do Marcelo e esposa do nutricionista Daniel Cady.
Sua vida é arretada.
E se o corre-corre já é intenso, imaginem daqui a alguns meses, com a chegada das gêmeas que a cantora espera ansiosa; aliás, ela já anunciou sua ausência no Carnaval 2018 (ahhhhhh), mas diz estar muito bem, obrigada. A decisão foi por pura prevenção mesmo, já que se sente ótima. “Como são duas, o peso é maior sobre o colo do útero, então, para não ter prematuridade, é melhor evitar”, alertou ela que está sentindo a barriga enorme e já não dorme mais com tanta tranquilidade, pois vai 18 vezes ao banheiro só durante a noite.

Apesar de não levantar a poeira no carnaval, com certeza Ivete estará conectada aos seus 7 milhões de seguidores do twitter, o segundo maior perfil do Brasil.
Dias atrás, o Brasil inteiro se emocionou com a sua história sendo contada no Programa Caldeirão do Huck, apresentado por Luciano Huck, seu ex-namorado.
Geminiana, Ivete é integrante de uma família de músicos da cidade de Juazeiro, interior da Bahia; é filha da pernambucana Maria Ivete e do espanhol Alsus Sangalo, e
a caçula de entre cinco irmãos: Mônica, Cinthia, Marcos (já falecido), Jesus e Ricardo. Já em Salvador, na adolescência, precisamente aos 16 anos, Ivete perdeu o pai de um infarto fulminante e, em seguida, o irmão Marcos num atropelamento. Alsus era ourives e quem sustentava a casa. Moravam em um apartamento maravilhoso, mas a dificuldade financeira bateu na porta e os irmãos juntavam moedas para comprar uma melancia. A mãe desmoronou em depressão. Para o sustento da família, Ivete chegou a trabalhar como modelo e vendedora de roupas e marmitas em um shopping da capital baiana, emprego que servia como intercâmbio para divulgar as “quentinhas” produzidas por sua mãe após a morte do patriarca da família Sangalo. Por muito tempo, as marmitas da Dona Maria Ivete serviram como fonte de renda de todos, até que a artista começou a se destacar pelos bares de Salvador e chegou ao estrelato por meio da Banda Eva, que fazia, em média, 30 shows por mês.
Seja Maria Ivete Dias de Sangalo Cady, Veveta ou Ivete Sangalo, aos 45 anos, esse mulherão aí é da fama, é da família e de todos os brasileiros. E nós, da Revista TUdo, embarcamos em sua vida para saber tudinho sobre ela e as gêmeas.
Confira e... Viva, Ivete.


Curiosidade
Ivete já vendeu 7 milhões de discos solo (e outros 3 milhões com a Banda Eva) e é recordista absoluta em DVDs, com o Multishow ao vivo – Ivete no Maracanã. A gravação levou 50 mil pessoas ao estádio e teve 1.350.000 cópias comercializadas, batendo todos os recordes mundiais da Universal Music, deixando para trás artistas poderosos como U2, Amy Winehouse e outras estrelas da companhia.

Revista Tudo: Recentemente, em seu Instagram, você publicou uma imagem do seu filho Marcelo beijando a sua barriga. Pelo jeito ele também está ansioso pela chegada das meninas.

Ivete Sangalo: Ele que me pediu; eu estava tranquila de já tê-lo, porque tem uma série de acontecimentos no país e no mundo que faz com que você reflita sobre o assunto. Eu pensava: “Meu Deus, será que vou conseguir trazer novos indivíduos e renovar esse mundo”? Mas o Marcelo começou com essa ideia de querer um irmãozinho. Um dia desses ele falou sério comigo, “Você precisa fazer”! E eu disse que não era bem assim, chegar numa delicatessen e comprar, né?! Nessa época, estava estudando reprodução humana e o avô dele comentou sobre a cegonha. Eu disse: ‘Não venha dar mérito à cegonha. O mérito é todo meu; ela não fez nada’. Daí ele entendeu que se o pai e mãe se dedicassem, aconteceria. Expliquei para ele sobre a minha idade, que era mais difícil, mas estamos muito felizes, porque eu não esperava gêmeos, e ainda mais de duas meninas. É igual ao sorvete que vem com um recado no palito: “você acaba de ganhar outro picolé”. Olhem como é bom chupar picolé, está vendo?! Eu aconselho! Chupem que dá certo (risos)!

Em relação a primeira gravidez, o que você tem sentido de diferente, e quais são os principais cuidados que você está tendo?
É muito diferente, mas tem um detalhe que não muda na minha condição de grávida: eu não me sinto cansada. A única instrução médica que eu sigo é não pular porque, como são duas, o peso é maior sobre o colo do útero, então, para não ter prematuridade, é melhor evitar. Não me sinto impossibilitada de fazer absolutamente nada. Sinto que a barriga está crescendo mais. Com o Marcelo, no quinto mês minha barriga já existia, mas não era desse tamanho. Ela cresce muito rápido, e elas mexem freneticamente, chegam até a me acordar. A dormida já começou a ter 18 idas ao banheiro; de dia eu também vou, mas elas gostam de ir à noite. Vou ao banheiro e, dali cinco minutos, outra vez. Meu Deus, que horas vai parar esse xixi? Me hidrato muito, me alimento com comida de baixa gordura, com pouco açúcar e pouco sal. Outra coisa que eu tenho feito bastante é hidratar o meu corpo, especialmente as partes onde vou ter o afastamento muscular ósseo, em virtude da gravidez, como barriga e peito. Eu fico besuntada, literalmente. É uma delícia, porque dá uma sensação boa.

Além desse cuidado em relação a hidratação, como você tem feito com as atividades físicas?
Eu sou uma pessoa muito cuidadosa; procuro fazer todos os exames preventivos regularmente e estou sempre me policiando quando se trata de saúde. A minha vida já é estabelecida, tanto em atividades físicas, quanto no que eu como, na maneira que durmo, como lido com as coisas o tempo todo. A gravidez, vem acompanhada de muitos cuidados, e eu não faço absolutamente nada sem a orientação médica. Quando eu falo em cuidados, por exemplo, é a questão de abrir mãos de algumas coisas; o Prêmio Multishow, por exemplo, eu não fui. No casamento de uma amiga também não. Eu pensei no seguinte: viajar, pegar avião, altitude; apesar de eu querer muito ir me controlei; apesar de eu já ter ficado grávida, essa é a primeira vez que fico de gêmeas. É todo um cuidado. Estou respeitando esses compromissos tradicionais com responsabilidade, feliz da vida, mas evitando excessos como festas. Mas está tudo ótimo, graças a Deus! Fiquei com muita vontade de estar lá (Prêmio Multishow) me mostrando.

Segundo um estudo da agência digital LabPop Content, você é considerada uma das artistas mais influentes nas redes sociais, no Brasil. Como você lida com esse poder?
Aí é que está o perigo! Olha, não quero ser pretenciosa, mas quero dar uma resposta honesta. Isso só me leva a crer que, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o público não é ingênuo e nem convencido por imagens. Eu tenho 24 anos de carreira, próxima de completar 25. E isso só me dá tranquilidade. Eu jamais subestimaria a capacidade do meu público. Na minha conduta, sempre fui muito honesta! Independente se eu estou certa ou errada nas minhas atitudes, a honestidade sobre elas é sempre válida. É bom quando você não é um personagem.

Hoje você está com um visual leve, toda de branco, vestido longo. Muda sempre de estilo?
Estou na vibe do figurinista mesmo. Ele veio com essa onda de praia, um lance moderno. Eu gostei e achei confortável. Estou procurando não apertar as meninas, porque elas crescem de dez em dez minutos. Nunca vi um negócio desse. Eu acordo e digo “Valei-me”.

Você já encarou o Maracanã lotado, os palcos de Nova York e outros lugares que são o sonho de vários artistas. O que mais você deseja para o futuro?
Existem marcas, números, estatísticas e gráficos que, quando são tornados públicos, tornam uma pessoa grande. Eu gosto de cantar. Se não for nos shows, eu vou estar cantando na minha casa, com o meu grupo de amigos, mas parar, nunca. A relação direta do show com o público, compor, ouvir as pessoas falando que minhas canções são como marcadores de suas vidas é muito satisfatório. Gravando ou não um milhão de músicas eu sempre estarei cantando e cantar é o meu maior desejo para o futuro.

Alguns artistas expressam suas opiniões sobre o amor livre; você concordou e isso repercutiu.
Sempre tive preocupação de não interferir nas decisões das pessoas, principalmente sobre o que eu acredito, porque em algum momento da minha vida eu posso mudar o meu conceito sobre determinado assunto. Um exemplo é a política; o que eu pensava sobre esse assunto há quinze anos não é o mesmo que penso hoje. Como eu tenho seguidores, na sua maioria adolescente, tenho que ter responsabilidade para creditar a eles as minhas falas. Tenho convicção de que a homofobia é humanamente inadmissível e não há nada que possa mudar a minha opinião sobre isso. Não respeitar o outro, porque ele é homossexual? O que esse fato mudará na minha ou na sua vida? Nós não estamos falando de um homossexual, ou de uma mulher, de um negro, estamos falando de um ser humano. O mundo está assim porque as pessoas não se libertam para o amor; elas se prendem ao ódio e ao julgamento, não existe união.

Sua relação com o público é contagiante, né?
Aos meus fãs que me conhecem, sempre digo: “Isso eu gosto, isso não”. Isso me invade, e em nenhum momento, os limites desse relacionamento são ultrapassados. Quando nos tornamos artistas, nos propomos a dividir algo com as pessoas que se emocionam e criam vínculos. Não posso ir ao shopping, mas posso fazer um milhão de outras coisas. Existem vários caminhos para falar e tratar a fama. Aliás, fama é uma coisa e sucesso é outra. Você pode ser famoso por ser um ladrão, pode ser capa de todos os jornais por ser corrupto, mas pode ter sucesso na carreira sem necessariamente aparecer nos jornais e ser reconhecido na rua, seja como empresário, como educador, como manicure. Vamos viver a dor e a delícia de ser o que é.


“fama é uma coisa e sucesso é outra. Você pode ser famoso por ser um ladrão, pode ser capa de todos os jornais por ser corrupto, mas pode ter sucesso na carreira sem necessariamente aparecer nos jornais e ser reconhecido na rua, seja como empresário, como educador, como manicure.

 
Andrea Beltrão fala de carreira, de desafios e de Donald Trump “o planeta já era”

         


Andrea é um ser humano interessante. E bota interessante nisso.
Carioca da gema, adora tagarelar sobre trabalho e até se perde no tempo. Então, é fato que o papo com a equipe da Revista TUdo foi longo, até doer a língua.
Ela respira trabalho, resultado de uma carreira consistente que comemora 40 anos e consagrada pela interpretação de personagens complexos, especialmente no teatro. Aliás, quatro décadas que lhe renderam um modo nu e cru de ver a vida.
“O tédio da plateia é um problema meu! Não é porque eles não entenderam a peça. Eu não soube contar, falar, fiz alguma coisa. Ou seja, fiz merda (risos). Fiz errado! Quando eu erro, paro, e vou novamente”, conta ela sobre o seu primeiro monólogo (Antígona) – no qual se atira de corpo e alma no fascinante mundo criado pelo dramaturgo grego Sófocles há mais de 2 mil anos - escrita no ano de 441 a.C. – A atriz contou porque demorou tanto tempo para encarar os palcos sozinha e quem lhe encorajou a seguir em frente. “É muito aflitivo ficar sozinha na imensidão do palco. Na verdade, quem me empurrou para esse abismo foi a Fernanda Torres”, revela.
O legal é que o texto é uma releitura de uma tragédia grega, levando o espectador a refletir sobre os atuais acontecimentos no mundo. “Quando estreamos a peça no ano passado, Donald Trump foi eleito o presidente dos Estados Unidos. Bateu um desespero! Pensei na 3ª Guerra Mundial, que o planeta já era, que acabou tudo e tal. ‘Um bom governante constrói pontes e não muralhas’, o Papa Francisco disse isso. Eu amo o Papa”, comenta.
Com planos traçados para o próximo ano na televisão, Andrea se prepara para viver Verônica, um filme que de tão bom vai virar uma série. “Por enquanto, no elenco sou apenas eu, mas não será um monólogo (risos)”, brinca a atriz.
Mergulhe, a partir de agora, no corajoso mundo de Andrea.
E entenda porque ele é tão corajoso.



Após 40 anos de teatro, você estreia seu primeiro monólogo, (Antígona), um texto complexo escrito por Sófocles há mais de dois mil anos. O que te fez querer contar essa história?

Eu queria fazer algo que nunca havia feito e que fosse diferente, que me colocasse fora da zona de conforto. Não que os trabalhos anteriores tenham sido fáceis, mas esse foi bastante arriscado num certo sentido. Correr risco é maravilhoso, mesmo que dê tudo errado. Quando eu comecei a trabalhar com o Amir Haddad (diretor) nessa história, não tínhamos expectativa e nem sabíamos se a história se tornaria realmente uma peça. Nós estamos experimentando. Isso trouxe liberdade e uma falta de expectativa, uma serenidade, uma coisa boa para o trabalho, muito sincera, honesta e desarmada.

Em uma de suas entrevistas, você comentou que tinha medo de estrear sozinha. Esse medo já passou ou é algo que ainda te assombra?
É muito aflitivo ficar sozinha na imensidão do palco. Uma das coisas maravilhosas do teatro é contracenar. Para mim, o teatro sempre foi estar com os outros contando histórias, a trupe, o grupo. Eu tinha muita aflição do monólogo, por isso, nunca quis fazer. Na verdade, quem me empurrou para esse abismo foi a Fernanda (Torres). Estávamos fazendo ‘Tapas e Beijos’ juntas e ela faz ‘A Casa dos Budas Ditosos’ há mais de dez anos; onde ela vai é multidão. Deve ser dificílimo ela pensar em parar de fazer. Num dia, almoçando juntas, comentei que tinha inveja dela, porque deveria ser tão gostoso. Ela comentou que eu também poderia fazer. Ela perguntou qual era a peça que eu mais gostava e eu comentei sobre ‘Antígona’. Ela me colocou em contato com a família do Millôr (Fernandes) para pegar a tradução. Pensei: ‘Agora vou ter que fazer, não tem mais volta’. De certa maneira, ela foi minha madrinha.

Nessa peça, são muitos personagens importantes. Como você conta a história da Antígona, já que tem Creonte, Ismênia, Édipo... Como foi o processo de transformação do texto original para um monólogo?

Quando começamos a trabalhar já era uma preocupação de como faríamos porque são muitos personagens. Nós íamos fazer a peça na íntegra? Agora sou Ismênia? Antígona? Um que pergunta e outro que responde? Seria muito maçante para o público e ninguém aguentaria. O Amir teve a sacada de voltar para o mito; antes de Sófocles existia o mito. Fomos para o primeiro antepassado de Antígona. Quando chegamos na Antígona, o Amir me deu uma tarefa que era contar a história para ele. Muita morte, assassinato, filho transando com a mãe, filho matando o pai, irmão matando irmão, era uma coisa de louco! Fizemos uma redução e criamos a árvore genealógica. Os personagens entram numa medida muito precisa para contar a história da Antígona; ela é uma pacifista, humanista, a maior de todas. Ela vai contra tudo e todos, vai de encontro com a morte, é emparedada viva porque não admite deixar que o corpo do irmão Polinice seja comido pelos abutres. É por amor que ela faz isso! Rebelde é o seu tio, o rei Creonte, que desorganiza tudo a partir de uma lei que ele inventa. Ele subverte toda a cidade e tudo acontece em volta.

O texto retrata muitas falas intensas, reflexivas. Para você, qual delas mais te impactou como ser humano?

São muitas! Cada um com a sua propriedade, imensidão, vastidão. Um dos momentos que eu mais gosto é quando Antígona está sozinha sendo emparedada viva, mas ela sabe que vai ao encontro dos seus familiares. Sua irmã Ismênia tem uma fala assim: ‘Que fim será o nosso? Muito mais miserável do que todos, se desprezarmos um decreto. Temos que lembrar primeiro que nascemos mulheres; não podemos competir com os homens; segundo somos todos dominados pelos que tendem a força. Temos que obedecer; não apenas nisso, mas em coisas bem mais humilhantes. Peço perdão aos mortos, que só a terra os oprime. Não tenho como resistir aos poderosos. Constrangida eu obedeço. Demonstrar revolta é inútil, é pura estupidez’. Uma mulher dizendo isso! São muitas falas que você tira da peça e coloca em qualquer lugar. As pessoas perguntam se nós escrevemos as falas. Não! Foi um senhor chamado Sófocles.

Essa fala é realmente muito atual. Você acredita que essa peça tenha o poder de fazer as pessoas refletirem sobre os mandos e desmandos do Creonte nos dias de hoje?
Incrivelmente, parece que esse texto foi escrito ontem, porque ele fala de tiranos, de pessoas que tenham uma coragem gigantesca pra fazer coisas que elas acreditam e que devam ser feitas. Vão até o fim de tudo por mais que doa, por mais que elas enfrentem a incompreensão dos outros. Mas vamos pular essa parte (risos); tem muito fora Temer, mas tem gente que gosta dele e estará assistindo à peça; mas o Temer é um sub Creonte. Eu penso mais no Donaldo Trump, ele sim é um Creonte. Quando estreamos a peça no ano passado ele foi eleito o presidente dos Estados Unidos. Bateu um desespero! Pensei na 3ª Guerra Mundial, que o planeta já era, acabou tudo e tal. No Rio de Janeiro e em são Paulo fizemos uma coisa muito legal, que foi a linha do tempo com vários acontecimentos como, por exemplo, quando o Brasil ganhou a copa, quando a empregada doméstica Marli Oliveira foi atrás dos assassinos de seu irmão, em 1980. Vale do Rio Doce que sofreu. Já estava na gráfica quando o Trump foi eleito e tínhamos que colocá-lo na nossa linha do tempo. Para nós, fez todo sentido. Quando começamos a fazer esse trabalho, a situação do país era totalmente diferente. Nada tinha acontecido; a Dilma (Rousseff) não tinha caído, o governo estava correndo. O Amir me questionava porque eu queria montar essa peça. Sinceramente eu não sei a razão. Num momento, olhamos um para o outro e descobrimos. Tudo o que falamos na peça é o que nós queremos falar hoje. ‘Um bom governante constrói pontes e não muralhas’, o Papa Francisco disse isso. Eu amo o Papa! Não tenho religião, mas eu o amo (risos).

Já que você tomou coragem em fazer seu primeiro monólogo, existe a possibilidade de você trabalhar outros textos?

Tem um que eu já entreguei para o Amir, mas ele ainda não leu porque trabalha muito. É um romance. Chama-se ‘O Primeiro Homem’, de Albert Camus. É maravilhoso, mas, não sei se vai dar certo; talvez a gente descontrua e o guarde na gaveta e, daqui uns 40 anos, a gente monte (risos). Mas é uma ideia.

Existe um crescente número de atores novos na televisão, mas sem formação no teatro. Comente.

As vezes chega uma pessoa que nunca fez e tem fome e sede; é espantoso. Depende da coragem porque no teatro você tem que deixar se devorar e estar disposto a perder tudo. De repente, 40 anos de estrada não quer dizer nada para aquele que tem seis meses, mas é doido suficiente. Muitas vezes, nós também ficamos engessados na vida.

Você faz muita expectativa do que as pessoas possam achar desse novo trabalho?

Nenhum! É um papo, uma conversa. Nós não esperamos nada! Nós fazemos! Aproveitamos o palco, o lustre, a parede, a gente faz! A mensagem seria uma pretensão, uma blasfêmia. Não temos mensagens. Está tudo ali sendo dito.

Mas quando você está encenando, qual a sensação e a resposta da plateia? Como você se sente?

Que eu não estou sozinha e todo mundo está no mesmo barco. O tédio da plateia é um problema meu! Não é porque eles não entenderam a peça. Eu não soube contar, falar, fiz alguma coisa. Eu lido de maneira crua e fria. Ou seja, hoje eu fiz merda (risos). Fiz errado! Quando eu erro, paro e vou novamente. O texto fica em cena, porque se me der branco, peço desculpas.

Como você avalia a evolução dos palcos na sua carreira?

Eu não sei avaliar porque sempre fiz; não consigo me ver de fora. Gosto de todos os teatros. Esse teatro, que o Amir me ensinou a fazer, é o teatro que hoje me sinto mais inteira, onde eu não tenho medo de ter branco, de escorregar, me sinto mais livre. Eu fiz uma peça chamada ‘A Prova’ (2003) em São Paulo que era teatro realista, americana, bacana, eu amava fazer. Tenho saudades dessa peça, do personagem. O meu gosto é muito variado. Agora, esse lugar é o mais interessante para mim. Pode ser que no ano que vem eu resolva fazer outra coisa.

E já que você comentou sobre o próximo ano, o que vem de bom por aí?
Para manter o meu teatro no Rio de Janeiro preciso fazer televisão e muitos outros trabalhos. Nós temos o patrocínio da Petrobrás, mas tem também o da Marieta Severo há onze anos. Pretendendo fazer um seriado chamado ‘Verônica’, uma história que se originou do filme, onde eu interpreto uma professora. Já estão escrevendo os primeiros episódios e é voltado para o debate num panorama para discutirmos a questão da educação no Brasil, nas escolas públicas, sobre as dificuldades, a violência. Para isso, temos uma equipe de redatores e uma diretora de escola muito importante no Rio de Janeiro, chamada Eliane. Ela conseguiu transformar a escola num modelo. Esse assunto tem uns oito ou dez anos. Eu e o Maurício Faria, com quem sou casada, estamos mexendo, recortando, fazendo reuniões. Por enquanto, no elenco sou apenas eu, mas não será um monólogo (risos).

Em São Paulo, existe uma variação grande de público e os musicais ganharam mais espaço. Para você é muito difícil concorrer com essas grandes produções?

Não! Não me sinto confortável em classificar o público porque eles vão onde tem uma boa história. Claro que tem mil apelos, essa é outra questão, mas os musicais são bons também. Tem para todos os sabores e cada um faz o teatro que ama, que gosta, que se identifica. E a plateia vai atrás. Gosto de ver os talentos e aquelas atrizes com as pernas lá na PQP. É sensacional. Às vezes a história não me toca, mas admiro. Quanto mais teatro tiver, melhor para todo mundo.



 
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